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O VINHO EM SEU SANGUE

They're just thorns without a rose

Be careful of them in the dark.

Tom Waits

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A luz amarela das ruas dá à noite paulista um ar deliciosamente fake . Os edifícios assumem o aspecto de cenários de papelão numa cidade cenográfica e as próprias pessoas assemelham-se a bonecos de papel machê manipulados por um marionetista tão invisível quanto inábil. No alto, sobre os edifícios, holodoors entreabrem janelas nas paredes da anoitecida caverna platônica. Casais fazem amor no alto, sobre os edifícios, reluzentes em sua aura banhada a laser. Mulheres sensuais e cowboys urbanos, ninfetas nabokov e yuppies de plástico experimentam e induzem a experimentar do último alucinógeno da moda à multimídia makeup , vestem as roupas da estação e despem as roupas da estação, amam e fazem-se amar, vendem o que simulam comprar. Ninguém, porém, observa seu samsara eletrônico: é a minha hora na cidade, e eu não sou ninguém. Não nesse contexto.

Não é que as ruas estejam totalmente desertas. Uma vez a cada, digamos, quarenta minutos, pode-se esbarrar no fantasma de um junkie e em filas de mendigos largados, um que outro esquadrão de boêmios à saída das boates ou um qualquer notívago perdido. Mas poucos desses peregrinos do sol-posto terão a esta hora um minuto para os holodoors . Eu tenho. Olhar faz parte de minha natureza, olhar bem, até estar certo de ter encontrado exatamente o que procurava. Detalhes que as pessoas desprezariam até subliminarmente, sem sequer se dar conta, ficam registrados no fundo de minha retina, informação avidamente sugada pelos nervos óticos que se encarregam de conduzi-la a um cérebro atento e voraz. O passo ébrio da femme fatale , o papel amassado de chocolate ao leite junto ao meio-fio coberto de pó, a ampola esmagada de THX, o brilho intermitente dos sinalizadores no alto dos edifícios, a menina enrolada em um cobertor rasgado, o cadáver de cão vadio atropelado, o vídeocartaz de um show do mês anterior, os CDbooks expostos numa livraria fechada, as folhas de uma derradeira árvore sinalizando a natureza perdida que jamais se teve, a fachada pichada do MASP, as estrelas do céu entre nuvens, o pombo encolhido à janela, os garotos perdidos e teu olhar adormecido, nada me escapa enquanto busco. E a loira alta que cambaleia ligeiramente pela calçada atrás de um táxi me diz com o vinho em seu sangue que, esta noite, minha busca terminou.

São duas horas da madrugada - de um dia assim. Estou deitado em minha cama, à espera de que a ronda noturna do Homem de Areia traga o sono a meus olhos. Ligeiramente entreaberta, a porta do quarto cede passagem à luz da Lua que penetra pelo painel de vidro do corredor e caminha devagar até o dormitório. É uma luz encorpada, cor de prata, intensa o bastante para que se leia os títulos dos CDbooks na estante ao lado da cama. Meu olhar passeia por eles no passo lerdo de um visitante de museu que abomina a pressa dos turistas e suas câmeras fotográficas: História de O, Ubik , os cinco volumes do Quinteto de Avignon ... Lentamente descem as pálpebras, como uma cortina que se abre para o palco onde mulheres de branco, etéreas e fantasmagóricas, executam um lânguido bailado hipnagógico. Há um vulto na porta. Feminino. Não consigo ver os detalhes, como o rosto ou a cor dos cabelos, mas o volume dos seios e a curvatura dos quadris são inequívocos. Levanto-me para investigar. Escancaro a folha lisa de madeira sintética e, como seria de se esperar, não há ninguém - ninguém aqui, só nós. Um sonho, é claro: o que uma mulher desconhecida estaria fazendo em minha solteira casa vazia a esta hora? É uma pergunta difícil de responder, e a voz aveludada que escuto diz apenas: "Entrei."

São duas horas da madrugada - estou deitado em minha cama, sem saber como voltei para cá. Não é a única coisa estranha. De onde veio esse inquietante torpor que imobiliza meus membros, impede até mesmo que eu mova minha boca, deixando apenas os olhos arregalados virando de um lado para o outro? Do meu lado direito, escuto um cochicho de mulher, mas não consigo perceber o que diz. Se fecho os olhos, posso vê-la: tem cabelos castanhos e olhos desmesuradamente negros. A boca, de lábios cheios, exibe um sorriso de qualidade indefinível. Corpo pequeno, bem modelado. Se fecho os olhos, ela está deitada ao meu lado. Abro-os e estou sozinho com o torpor. Não os abro. Devagar, ela estende seu corpo contra o meu. As pupilas com que aprisiona meu olhar são janelas abertas para um tempo e um espaço além da compreensão humana. Acho que ela está me hipnotizando, porque, sem desviar meu rosto do dela, acabo resvalando para o sono. Sonho com um riso que é como o murmúrio de muitas águas cristalinas, e sonho com uma cachoeira de águas cristalinas. Sonho com um unicórnio que se aproxima da cachoeira e bebe de suas águas cristalinas. Sonho com um unicórnio de olhos negros, que são como janelas abertas para um tempo e um espaço além da compreensão humana.

Não é meu tipo de mulher. Apesar de bonita, e muito sensual, acho-a por demais corpulenta, bunda muito grande, seios excessivamente volumosos. Ela tem tudo para satisfazer o gosto típico de brasileiros, americanos e japoneses. Não o meu, porque prefiro que meu gosto seja atípico. Gosto de mulheres bem-feitas de corpo, mas pequenas, esbeltas, no melhor estilo mignon . Se algum dia escolher alguém para compartilhar, por assim dizer, o resto da minha vida, vai ser uma mulher nesse estilo. Mas não sou purista. Às vezes, meu sangue ferve com garotas que fogem completamente ao meu padrão, como neste caso, e quem sou eu para deixar de ouvir a voz do sangue?

Aproximo o carro do meio-fio. Ela se adianta um passo, julgando ser um táxi, mas pára ao ver o motorista. Táxis não têm motoristas. A esta hora, tampouco há táxis, embora ela não pareça ter-se dado conta disso.

- Quer uma carona? - pergunto, abaixando o vidro do automóvel.

- Não obrigada. - ela responde, educada mas firme. Está bêbada mas não é tola. Não se oferecem caronas à toa na São Paulo das madrugadas, a não ser que se ande com décimas intenções. Bem, as minhas, as melhores intenções, estão na casa das vigésimas-oitavas.

- Olha, não vai passar nenhum táxi por aqui. - insisto. - Nem ônibus, claro. - Apesar de que, bem vestida como ela está, parece do tipo que nem saberia soletrar a palavra ônibus . - Perdeu a condução?

Durante alguns segundos, seu rosto oscila entre a vontade de desabafar e a expressão de o-que-é-que-você-tem-a-ver-com-isso?, código 0U812 do catálogo de fast-faces fornecido a todo paulistano no dia do seu nascimento. Por fim, ganha a primeira. Meu tom de voz foi calculado para inspirar simpatia. Minha própria expressão, item fora de catálogo e fabricada sob encomenda, foi calculada para inspirar simpatia. Meu carro, vê-se logo pelo porte da mulher, é do tipo que lhe inspira simpatia. Ela fala.

- Briguei com meu namorado. - diz. - Ele achou que eu estava flertando com outro cara.

- E você estava?

Uma dose pequena de provocação sempre ajuda. Ela arregala os olhos num rascunho de zanga que não chega a se formar e balança a cabeça, meio indecisa.

- Eu sempre pareço estar flertando com alguém. - explica. - É o meu jeito.

Fica esperando que eu diga alguma coisa. Eu digo:

- Meu nome é Lucard. - apresentação formal, sorriso informal. É uma combinação que nunca falha.

- Cintia.

Pronto, meu bem. Já não somos mais estranhos. Da capo .

- Quer uma carona?

Abro a porta. Ela entra.

Durmo sempre com as placas de transparência subjetiva ligadas, e a luz do dia que acabou de nascer atinge meu rosto com o impacto de uma colisão de jamantas. Levanto de um salto e esmurro o botão que fecha as placas, mergulhando o quarto numa escuridão benfazeja. Durante um momento, a retina pulsa com a persistência do brilho do Sol. Sento-me e fico parado uns instantes, preparando-me para enfrentar o dia. Sinto-me muito tonto, meu estômago dá voltas como uma jibóia de estimação. Ainda com a vertigem do sono, ponho-me de pé e vou cambaleando em direção ao banheiro. Está errado, penso. Paro e olho para trás. A porta do quarto está fechada: eu a fechei quando saí? Bom, pra falar a verdade, não lembro nem mesmo de tê-la aberto. Falar em lembranças, recordo vagamente que sonhei com unicórnios e cachoeiras, mas não consigo extrair da memória os detalhes. Não importa. Entro no banheiro. Ligo o 3DMirror e espero o feixe do laser percorrer meu corpo e projetar seu holograma perante mim. Ele demora e não projeta nada. Deve ter quebrado. Escovo os dentes enquanto o homeostato ajusta o chuveiro à média entre a temperatura ambiente e a minha. Por algum motivo, a escova trava. De repente, a idéia de um banho de chuveiro me repugna. Prefiro encher a banheira. Quando me deito, sinto um agradável torpor que me parece familiar, como se ecoasse uma outra sensação, indeterminável. Ensabôo-me e, ao passar a esponja pelo pescoço, percebo uma espécie de calombo ou algo parecido. Apalpo o lugar com a mão. São duas pequenas feridas, cobertas com uma crosta de sangue seco. Como uma mordida.

O apartamento dela, espaçoso sem chegar a ser grande, parece uma vitrine de loja hi-tech - como o meu, aliás. O terminal de multimídia ocupa uma posição de destaque junto à parede. É um modelo sofisticado, que faz a palavra vanguarda parecer o que existe de mais demodê na face da Terra, integrando computador, HDTV, rádio, CD, vídeolaser, junto a uma instalação deliberadamente retrô de vídeocassete, toca-fitas e até uma vitrola. Não posso evitar a inveja, sobretudo ao ver que, ao contrário do meu, o terminal incorpora um sistema de realidade virtual. Há uma estante de linhas sóbrias e cores claras, combinando com o jogo modular de sofás. A estante possui quatro prateleiras, ocupadas com um conjunto de estatuetas chinesas de marfim, representando os oito grandes imortais, e uma pequena mas seleta coleção de livros verdadeiros, livros de papel. Em outras palavras: uma garota razoavelmente rica e muito da pós-moderna. Por um momento considero a hipótese de... Melhor não.

- Quer beber alguma coisa? - ela oferece.

- Se você me acompanhar.

Ela hesita, com certeza pensando que já bebeu demais. Mas acaba por fazer um gesto de desdém, significando "foda-se, estou em casa mesmo", e abre o barzinho para que eu escolha. Só então reparo no móvel. Projetado para não chamar a atenção e, ao mesmo tempo, fazer nosso queixo cair de admiração uma vez localizado. No barzinho, uma surpresa: uma garrafa de amanita siberiana pouco acima da metade. Não poderia ser melhor, digo a mim mesmo. E não precisei usar qualquer sugestão hipnótica...

Com o que sonham os vampiros? O que poderiam sonhar os mortos, os não-vivos, aqueles que ultrapassaram o prazo dentro do qual deveriam levantar-se e andar pela Terra, e que ainda assim recusam-se a se entregar à lenta porém segura dança entrópica da decomposição que deveria ser o caminho de toda carne?

Ignoro quais são as imagens que passam pela cabeça dos outros quando estão deitados no escuro, o resto do mundo mergulhado numa claridade enceguecedora que, não sendo verdade que nos destrua, e nem mesmo provoque leves queimaduras, por outro lado é um bocado incômoda. E não sei com o que eles sonham por um motivo bastante simples: ao contrário do que Roman Polanski mostra na Dança dos Vampiros , inexiste qualquer conspiração de Nosferatus para dominar a Terra. Não temos nem mesmo clubes, nosso barzinho preferido ou uma sociedade de amigos dos sugadores de sangue. Somos predadores, e predadores são sempre solitários.

Meu primeiro sono como anfíbio, suspenso da brecha entre aqui e além, foi povoado pelas imagens banais de qualquer sono, e de interessante tinham apenas o fato de remeterem todos à minha infância. Mas A Interpretação dos Sonhos aproxima-se de seu sesquicentenário e a essas alturas já se deveria saber de cor e salteado que isso vale para qualquer sonho: os meus, naquele dia, sendo apenas um pouco mais explícitos a esse respeito. Um deles, inclusive, era a repetição quase literal de um pesadelo que eu costumava ter com quatro anos de idade. Estava no quintal da casa de minha avó quando abruptamente surgia uma japonesa vestida de gueixa e, lentamente, naquele passinho curto de esposa de samurai, aproximava-se de mim, pegava no meu braço e dizia: "Você quer aprender a voar?" Antes mesmo que eu tivesse chance de entender a pergunta, e com uma força que ninguém saberia como tinha ido parar naquele braço, ela me arremessava para cima e eu acordava, ainda sentindo a vertigem da queda para o alto e com muito mais medo do que o justificado pelo conteúdo manifesto do sonho.

No vídeotape a que assisti dormindo, cerca de vinte anos mais tarde, as coisas se passaram da mesma forma, exceto pela pergunta que a japonesa fazia, e que agora era: "Você quer aprender a matar?"

Os primeiros minutos da bebida fazem com que a sala do apartamento de Cintia se torne fosforescente, cada peça de mobília emitindo uma seqüência contínua de mensagens telegráficas com a pulsação de fótons sobrenaturais conjurados nos subterrâneos do cérebro. A própria Cintia encontra-se envolta em uma aura de púrpura profundo, que descreve órbitas de extrema sensualidade ao redor de seu corpo, cada vez menos vestido à medida que eu a abraço, beijo seu pescoço, os seios, a vulva, percorro suas formas com mãos subitamente convertidas em letras de fogo contra um fundo abissal de luz negra. Enquanto nos deitamos, as paredes, os móveis, o terminal de multimídia, a sala inteira vai se decompondo em linhas de força luminosas e multicoloridas, os acidentes exteriores se apagando rapidamente para deixar a descoberto apenas a essência arquetípica das coisas, malha de supercordas ligando o espaço ocupado por nossos corpos à totalidade do universo, conexões não-locais abrindo caminho para além das fronteiras da realidade, mergulhando num abismo primordial anterior a qualquer existência particular. Finalmente, as linhas se contraem até transformarem-se em pontos luminosos que se põem a dançar diante de meus olhos fechados.

Contemplo o rodopiar de um conjunto de luzes formados com todas as cores do mundo, algumas que não se sabe de onde vieram e a cor que caiu do céu, cada partícula resplandecente ajudando a tecer a rede brilhante de uma girândola hipnótica e psicodélica, que vai se abrindo em movimentos espirais até preencher completamente minha tela mental, para então retrocederem no mesmo ritmo, contraindo a rosácea que compõem até se concentrarem num único ponto, primeiro entre os átomos, anterior à gênese, hesitando alguns segundos no centro virtual de meu campo de visão antes de recomeçarem com o balé pós- big bang coreografado pela amanita.

Sob meu corpo, Cintia murmura repetidamente seu próprio nome, como se fosse o encantamento-chave de algum antigo ritual de bruxaria somente conhecido das mulheres. Sinto suas longas unhas vermelhas percorrerem minuciosamente a topografia de minhas costas, num ritmo que inexplicavelmente acompanha a feérica dança executada pelas luzes que só eu vejo. Suas pernas me envolvem a cintura e ela pressiona seus seios com força contra meu peito. Para meus sentidos distorcidos pelo alucinógeno, a pressão se transforma numa onda de calor em que a consciência languidamente mergulha, penetrando numa escuridão morna e úmida capaz de dissolver qualquer vestígio de auto-identidade. Uma garota explosiva. Se essas são as carícias preliminares, o que será o orgasmo com ela? Não posso me entregar totalmente. Preciso lembrar que meu objetivo não é uma trepada, que sexo é apenas o aríete com que forçarei o caminho até seu sangue, o sangue que corre por esse corpo macio, sensual, inexorável. Estou perdendo a batalhe pelo autocontrole, que se dane, nunca antes transar com uma garota abrira um leque tão estranho de sensações, estou no meio do deserto, caído junto às areias de uma duna e em meu delírio alucino que faço amor com uma blondie sobre o carpete da sala de seu apartamento, não é um carpete, são grãos de areia, aquela luz no alto é o Sol que me charqueia a carne, a garganta seca contrai-se até quase atingir o raio de Schwarzchild, arrasto-me à procura de qualquer fonte de líquido, não há oásis, não consigo nem mesmo chamar o garçom para me trazer uma garrafa de água mineral sem gás, vinho tinto s'il vous plait , com certeza é a amanita, preciso de mais uma dose, querida, importa-se de tirar a boca do meu pênis, era eu quem deveria morder você, seja você quem for e por falar nisso seja quem for eu também, chegue o pescoço para cá, não é o pescoço, meus lábios colam-se a seu seio branco, deslizam até sua boca, é difícil imprimir aos movimentos a precisão necessária, mas por fim localizo a jugular e nela cravo meus dentes antes que a perca novamente. Cintia exala um grito rouco, felino, e deixa que eu sugue seu líquido vital ao mesmo tempo que o meu jorra para dentro dela e me extravio em um labirinto de fulgurações de amanita cercado de trevas por todos os lados.

Enquanto o tempo passa, vou aprendendo algumas coisas sobre meu novo estado. Não estou morto, mas tampouco se pode dizer que eu viva. Tenho uma espécie de semivida, que só se mantem artificialmente, com o plasma sanguíneo de outras pessoas, já que meu próprio organismo tornou-se incapaz de renovar o sangue. Tenho que me alimentar menos vezes do que antes. Uma vez a cada três dias é o suficiente. O coração não bate mais espontaneamente: como na fisiologia de Descartes, é o fluxo do sangue que sugo que estimula o movimento do músculo. Tempos atrás, li uma teoria amalucada que explicava o vampirismo como uma infecção produzida por uma espécie de bacilo. Se um vampiro injetar seu sangue em alguém, em vez de chupar, sua vítima também se contamina. Pode ser verdade. Não sou nem louco de pedir a um médico que confirme. Abraham Van Helsing era médico, esqueceram? Provavelmente acabaria com uma estaca enfiada no peito, a cabeça cortada rolando para longe. Ou pior.

Saio apenas à noite. Alimento-me com a seiva que escorre pelo corpo de mulheres jovens e atraentes. Questão de estética: em princípio, qualquer pessoa serviria. Mas, por que atacaria um homem, tendo de me contentar apenas com seu sangue, quando, além de nutrição, as mulheres também podem me dar prazer? Sobrevivo - e é de sobrevida mesmo que se trata - com o que consigo tirar delas. Roubo, sim. Posso não ter que comprar comida mas, ao que me consta, um estilo de vida como o que ostento ainda não sai de graça.

O sangue de Cintia tem um gosto diferente, esquisito. Não é a amanita, que sou perfeitamente capaz de identificar. Junto à droga diluída na corrente sanguínea, percebo com nitidez um gosto de óleo e ferrugem, e o próprio sangue tem uma consistência mais pastosa que o normal. Levo alguns segundos para identificar que tipo de gente tem sangue assim, espesso, e fico espantado com a descoberta.

- Você não é humana, porra! - exclamo.

Ela geme. Ainda estou dentro dela, com os dentes e com o membro. Seu icor escorre abundantemente pela minha boca.

- Você é uma andróide!

Levanto-me. Ela me olha, espantada. Álcool, amanita e orgasmo deixaram-na embotada. Ainda não percebeu que eu a mordi.

- O que é que tem isso? Vai discriminar?

Pela lei, andróides são cidadãos como quaisquer outros, não importa que tenham nascido de um laboratório de engenharia genética em vez de um útero humano. O artigo da constituição contra o racismo aplica-se também a eles. Tratar andróides como não-humanos não é politicamente correto. Nada contra, só que, merda!, não se pode sugar o sangue de um andróide!

Cambaleio pela sala. Nunca mordi um replicante. Não sei que diabo de efeito isso vai ter sobre mim. Visto-me, atabalhoadamente, a língua ainda sabe a azeite de oliva sem oliva, Cintia continua largada no chão, as pernas abertas escorrendo sêmen, a jugular aberta escorrendo sangue. Seus olhos estão embaçados. Não é apenas o coquetel de estimulantes em que se transformaram seu estômago e o baixo-ventre, a fraqueza provocada pela hemorragia está começando. Ela vai morrer, claro. Procuro o banheiro, abro o armarinho de remédios, deve ter qualquer coisa para fazer um curativo. Não encontro nada, nem um miserável tubo de películas band-aid . Por que me preocupo? Ela é só uma vítima, apenas outra presa que encontrei na noite da cidade. Droga, não é nem mesmo uma boa vítima, não passa de uma andróide. Em vez de alimento, bebi veneno, devia mais era me preocupar com o que vai acontecer ao meu organismo. Mas foi a melhor foda de minha além-vida. E tem um corpo esplêndido. Claro, ela foi projetada para isso, como poderia ser diferente? O cara que ela chamou de "namorado" provavelmente era um cliente, quem sabe? Talvez até o sujeito que mantinha o apartamento para ela. Por que eu deveria ligar?

No entanto, eu ligo. Volto para junto dela e me ajoelho ao lado de seu corpo já inconsciente. Ergo-a delicadamente e, quase com ternura, volto a morder seu pescoço. Desta vez, não sugo nada. Inoculo.

São duas horas da madrugada - estou deitado em minha cama. É uma noite como a primeira noite, enluarada, suave. Penso na vampira que me transformou em carne de sua carne e sangue de seu sangue. Imagino onde ela estará, qual o nome humano que recobre sua voracidade animal, com o que ela sonha ao dormir. Gostaria de tornar a encontrá-la. Mas vampiros são predadores solitários e suponho que não teria nada para lhe dizer se acaso nos cruzássemos por essas madrugadas da Paulicéia desvairada.

Estou cansado. Passei uma semana massacrante, vomitando sem parar. Achei que o estômago ia querer contrariar as leis da física e deslizar ladeira acima, escorrendo pela garganta, mas ele acabou aguentando firme no lugar. Tontura e vertigem alternavam-se. Febre. Alucinações. A segunda morte de que fala o Livro dos Mortos egípcio ameaçava-me com a aniquilação total da alma. Via-me flutuando em um rio de águas sombrias, deitado numa barcaça conduzida por um homem com cabeça de chacal, enquanto demônios em forma de crocodilo esperavam junto às margens pelo momento de se atirar a meu coração. No céu, morcegos de olhos injetados conduziam um cortejo de espectros e aparições. Sentia longas fileiras de dentes dilacerando meu peito. Gritava, uivava de dor. De repente, estava de volta à minha cama, quase afogado em suor e lágrimas. Depois, as alucinações regressavam e eu estava sendo crucificado por uma multidão de anões de unhas compridas, vermelhas. Longos cravos de ferro oxidados prenderam minhas mãos à trave horizontal da cruz, mas o sangue não escorreu. Meus pés foram pregados no poste da cruz, mas o sangue não escorreu. Um anão com cara de fuinha enterrou uma lança em meu corpo pendurado na cruz, mas o sangue não escorreu. Era o topo de uma montanha rochosa, o Sol e a Lua brilhavam ao mesmo tempo e a multidão aplaudia sem parar. Sabia que jamais morreria, então fechei os olhos e me fingi de morto, para que meu cadáver fosse descido e sepultado. Ainda assim, demoraram para agir. Arrastaram meu corpo para uma caverna e fecharam a entrada com uma pedra larga. Três dias depois, ergui-me da sepultura. Com esforço, afastei a pedra da porta e entrei em meu quarto. Finalmente, a febre cedeu. Estou cansado.

Há uma semana que não tenho fome. Ontem, comi apenas um sanduíche de queijo com um copo de leite. Hoje, tomei só o copo de leite. Acho que já estou em condições de sair. Tomo um banho e troco de roupa. O Sol da tarde ecoa uma luz fraca, agradável sob o azul do céu. Entro no carro e vou até o apartamento de Cintia. As ruas estão cheias de gente que sai do serviço, vai para a escola, volta para casa. Camelôs amontoam suas barraquinhas de everything & nothing . Deixo o carro estacionando-se a cem metros do edifício e, quando me apresento, o porteiro me deixa subir sem chamar pelo interfone. Cintia deve ter dado ordens nesse sentido para ele. Por quê? Não faço a menor idéia. Talvez, apesar de tudo, ela me considere seu amigo por lhe ter salvado a vida. Muito embora a verdade é que não foi bem isso que eu fiz.

Ninguém atende à campainha. Empurro a porta. Está aberta. O apartamento encontra-se vazio. Os sofás, o terminal de multimídia, a estante com livros verdadeiros, tudo parece ter sumido no ar. O resto do apartamento mostra-se igualmente desnudado. Vou embora. É claro que Cintia não me considera seu amigo, penso ao entrar no carro. Ela é um predador, e predadores são sempre solitários.