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SCREAMERS

Lúcio Manfredi

Screamers - Assassinos Cibernéticos tinha tudo para dar certo. Foi baseado num conto de Philip K. Dick, "Second Variety", e o roteiro é de Dan O'Bannon, co-autor de O Vingador do Futuro . A história é ambientada no ano de 2078, numa colônia de mineração em Sirius 6B. Ali, o Novo Bloco Econômico (New Economic Block), corporação dominante na Terra, descobriu uma fonte de energia abundante e barata, o berínio. O único inconveniente, como logo se descobriu, é que se trata de uma substância altamente radioativa, que envenena rapidamente os mineiros que tentam extraí-la. Uma aliança formada por mineiros e cientistas passa a exigir que a exploração do berínio seja suspensa, para o bem dos trabalhadores. Ameaçado em seus interesses comerciais, em retaliação, o NBE ataca a aliança. Isso dá origem a uma guerra entre as duas facções. A própria Terra se divide numa nova guerra fria entre o NBE e os países favoráveis à Aliança. Em Sirius 6B, os cientistas da Aliança desenvolvem uma arma especial: os screamers , robôs dotados de inteligência artificial, capacidade de se autoreproduzir e programados para matar qualquer ser vivo que caia em seu raio de ação. Os screamers logo se espalham por todo o planeta, tornando-se uma ameaça tanto para o inimigo quanto para seus próprios criadores. E como são capazes de aprender com a experiência, evoluem até um novo tipo de screamer , uma imitação perfeita dos seres humanos, que se mistura às pessoas reais para eliminá-las.

Como se vê, a história retoma duas obsessões temáticas de Philip K. Dick: a impossibilidade de distinguir o real do simulacro e a humanização cada vez maior das máquinas, a par de uma desumanização crescente dos seres humanos. O primeiro desses temas serviu de inspiração a O Vingador do Futuro . O segundo, a Blade Runner . Screamers poderia perfeitamente se igualar a seus predecessores. Mas, infelizmente, o filme não funciona. E, o pior de tudo, seus principais defeitos concentram-se justamente no roteiro.

No começo da história, ao descobrir que os soldados foram abandonados em Sirius 6B, o protagonista, interpretado por Peter Weller, fica desesperado porque eles não têm como voltar para casa e estão condenados a morrer naquele planeta desolado e infestado de screamers . Mas, eis que no fim do filme, o mesmo intrépido oficial revela à mocinha perplexa que, surpresa!, tem uma espaçonave escondida para uso exclusivo do comandante - a saber, ele. Se é assim, por que toda aquela choradeira no começo? Esse artifício - na última hora, tirar da manga uma solução imprevista - tem um nome. Chama-se deus ex machina . E como qualquer dramaturgo e roteirista sabe desde Aristóteles, essa é a marca de uma história inconsistente. O nome (literalmente, "o deus trazido pela máquina") vem do período de decadência das tragédias gregas quando, incapazes de resolver o imbroglio que tinham criado no palco, os autores faziam intervir uma divindade que descia do céu para amarrar as pontas soltas. O ator que fazia o papel do deus era descido até o palco por um sistema de roldanas, daí a expressão deus ex machina . Mas a máquina, no caso, poderia perfeitamente ser a espaçonave que surge do nada no final de Screamers . Para tornar a situação ainda mais inverossímil, a nave está escondida num compartimento secreto, cuja porta só abre com a bioassinatura pessoal do comandante. Nesse caso, como é que, tão logo ele e sua companheira entram no compartimento, descobrem que o lugar está infestado de screamers ?

O filme ainda abusa de outros clichês, como o screamer que aprende a amar e se sacrifica no final, ou o fim em aberto - que não dá para levar mais a sério desde que Roman Polanski acabou com ele em A Dança dos Vampiros . Situações previsíveis e personagens estereotipados (o jovem recruta inexperiente, o veterano durão, o soldado histérico ou a mocinha vivida) não contribuem nem um pouco para o interesse da história, que ainda fracassa miseravelmente na tentativa de criar suspense: se você quer que a identidade secreta do screamer seja uma revelação, não deve mostrar o personagem como um sujeito frio e obcecado por facas.

Para não dizer que o filme é totalmente ruim, ele tem algumas boas sacadas, onde ecoa o espírito original de Dick. Como os cigarros anti-radiação, que as pessoas precisam fumar para não serem envenenadas, ou a utilização da ópera Don Giovanni , de Mozart, que era um dos compositores preferidos do autor. O sujeito que entra numa sala pela porta e depois se revela um holograma, bem como a pedra que na verdade é um inseto disfarçado, são exemplos fiéis da habilidade de Dick em jogar com as aparências. E o screamer que morre recitando Ricardo III merecia estar num filme melhor.

Infelizmente, nem esses bons momentos conseguem salvar um roteiro confuso, que deixa muitas perguntas sem responder (por exemplo: quem enviou a mensagem falsa do secretário Green?) e dá uma resposta estapafúrdia para outras - como um screamer consegue imitar outras pessoas? Resposta: arrancando o escalpo delas...

Resumindo, se o que se quer é um filme que traduza a inquietação peculiar de Dick, sua perplexidade em relação à condição humana e a uma realidade que insiste em não estar onde a esperamos, Screamers é uma perda de tempo. Melhor rever O Vingador do Futuro e Blade Runner . Ou ir direto à fonte, os romances e contos de um autor que, mais do que ninguém, soube evitar os lugares-comuns da ficção científica e da literatura.