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MISSA

Adriana Simon

 

        Já estavam atrasados. O pai olhou no relógio impaciente, já estava esperando há um bom tempo seus filhos se arrumarem. Olhou feio para a esposa, dirigindo-se para a saída.

        — Não agüento mais ficar aqui em pé, estou esperando no carro.

        A mãe subiu para ver o que estava acontecendo com as crianças que não desciam. Quando chegou ao quarto não se surpreendeu, elas estavam brigando, completamente desarrumadas. Deu um berro:

        — Parem agora!

        As crianças obedeceram imediatamente, pois sabiam que quando a mãe gritava era sério, e não queriam se arriscar a levar uns tapas. A mãe ajeitou rapidamente os filhos e empurrou-os para baixo. No carro, o pai estava prestes a ter um ataque nervoso.

        — Por que vocês demoraram tanto! — Perguntou o pai, vendo as crianças se encolherem trêmulas no banco de trás. — Se nós não estivéssemos indo para a missa, e eu não estivesse me esforçando para ficar calmo, vocês iam ver só.

        Ele ligou o carro e saiu, arrancando. Após algum tempo chegaram na igreja, que já estava cheia de fiéis. Estacionaram o carro e quando iam entrar ouviram um tumulto a pouca distância. Carregando as crianças, o casal se aproximou para tentar descobrir o que estava acontecendo. Era uma espécie de passeata, com pessoas de todas as idades, inclusive crianças.

        — Você consegue enxergar alguma coisa ? — perguntou a mãe para o pai, que era mais alto.

        — Eles estão carregando algum tipo de aparelho, que não consigo identificar.

        — O que tem nos cartazes ? — perguntou ela.

        — Parece que são desenhos, imagens de um ser muito estranho, alienígena.

        Os integrantes da passeata cantavam uma bonita música, afirmando ser aquele o seu Deus. Carregavam várias faixas, escritas com frases do tipo "Vejam a luz, este é o Senhor" e "Deus é amor". Ficaram observando por algum tempo. Algumas pessoas os chamavam para participar.

        O que parecia ser o líder, subiu num caixote. As outras pessoas que participavam da passeata se juntaram ao redor dele. O líder pigarreou e disse em voz alta:

        — Amigos e amigas, jovens, crianças e idosos. Ouçam todos. Deus nos deu um sinal. Mandou até nós este aparelho contendo boa parte do seu legado. Seu temperamento benevolente fez com que perdoasse a nossa ignorância por tanto tempo, e nos deu mais uma chance de enxergar.

        — Aleluia! — Responderam os fiéis do novo Deus.

        — Pois é, meus caros irmãos, esta é a nossa última chance de acreditar no Senhor e sermos salvos. Por isto, deixem tudo de lado e nos acompanhem. Deixem suas casas, seus carros e todos os seus bens materiais e venham conosco, em busca da vida eterna.

        O pai balançou a cabeça, confuso, e disse:

        — É melhor entrarmos na igreja.

        A mãe e as crianças seguiram-no. Entraram e ouviram o padre falando:

        — Caros irmãos, antes de iniciar a missa, gostaria de dizer algumas palavras. Vocês não podem dar ouvidos a estes loucos aí fora. Isto é blasfêmia, e estes pecadores irão para o inferno por isto que estão pregando.

        Uma senhora sentada bem na frente fez um sinal. O padre assentiu com a cabeça para que falasse.

        — Me desculpe, senhor padre, mas eu gostaria que me explicasse o que está acontecendo.

        — Bem, acho que é melhor eu mesmo explicar do que vocês buscarem respostas com eles. Como vocês sabem, a algum tempo atrás chegou do espaço um aparelho com várias informações sobre um povo alienígena. Várias informações, como fórmulas matemáticas, eram coisas que já conhecíamos, mas algumas outras não puderam ser decifradas. Vários cientistas trabalharam na tentativa de descobrir uma explicação. Acontece que um destes cientistas falou que descobriu nestas informações como é Deus e agora está pregando para todos. Como já disse isto é blasfêmia. Está escrito nas Escrituras: "... fomos feitos à imagem e semelhança de Deus". E eles insistem em que ele pode ser aquele ser repugnante, com pelos longos no rosto e espinhos na testa. Gostaria que todos vocês refletissem sobre tudo o que falei e não se deixassem iludir com as palavras deles. Afinal, vocês sabem que é preciso ter fé para alcançar a paz eterna.

        A mãe suspirou aliviada. É claro que tinha fé. Queria acreditar nas palavras do padre, principalmente por não ter que deixar suas coisas para seguir junto com a passeata. Agora estava tranqüila, sempre se sentia segura com suas palavras. Olhou para o marido e sorriu, acariciou suas costas com o seu tentáculo, esquecendo por um momento as crianças que voavam no alto do templo.