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KRAUSE

(Rogério Amaral de Vasconcellos)

I

 

                         Acordou no mundo como uma tora perdida trazida pelo vagido das tormentas e lançada, balouçante ainda, numa ilha distante, cônscia de sua superfície outrora errante, matéria fria, molhada, salgada e absolutamente desnorteada, como era própria de uma trave derivada dalgum naufrágio em alto-mar ou mesmo um galeão fundeado pela eternidade nos muitos recifes de coral, mas não um ser-humano.

                            Seus pés, que até então arrastavam sulcos ondulados na areia, criavam, por onde passavam, pegadas aos poucos identificáveis como tais naquela praia opalescente; o 1º, o pé direito, alagado, invadido pelos grânulos de areia e minúsculas conchas, o aplainar de novas ondas, cobrindo seus tornozelos inchados de espuma, areia e algas: o grande datiloscopista telúrico se encarregando de não deixar marcas de sua passagem pelo mundo; uma nova armadilha para novas vítimas, quiçá outros tais quais ele próprio, uma vítima das circunstâncias...

                            Sua única lembrança era um sólido istmo ligando as sombras do agora e do antes, um túnel pelo qual o trem do esquecimento passava, sendo o trem um objeto perfeitamente visível mas em cujos vagões não se permitia devassar qualquer vislumbre de ocupantes; via-se o concreto onde se obliterava de todo o imaginário, tinha-se a idéia mas não o primordial: o trem seguia célere e com ele suas lembrança, sem qualquer esperança de alcança-las em qualquer das estações; um passageiro sem condução, destinado a trilhar todo o árduo caminho da mesma forma com que viera àquele mundo, sobre seus próprios joelhos, engatinhando...

                            Todo texto tem vida própria, todo sexo exala um odor característico. Em sua existência devia haver uma coisa assim, tão absoluta como uma LEI devia ser, na qual depositar sua crença; em todo caso de nada adiantava, pois se havia tal coisa, lhe era negado. Estava ali, só e overdoseando duma ressaca consoante com o ambiente perturbador, e era a partir daí que teria de construir sua vida, à partir do nada em direção a parte alguma?

                            O marulhar das ondas que batiam-se contra os elementos ressoavam como matilhas de enfurecidos, porém acrobáticos respingos, saltitando nas rochas e lhe encharcando o peito por onde seu rastro salino divergiam em pequenos leitos por entre os tufos da negra alga humana que ali cresciam na forma de pêlos, convergindo para algum lugar, de onde seriam recuperados por ocasião do refluxo da maré. Nesse intervalo sentia os sons das águas se distanciando e os pios das gaivotas se multiplicarem a medida em que se afastava da linha d’água.

                            Ovos foram seu primeiro banquete. Abortara-os para viver; ovos que de outra forma chocariam para bailar nos ares e copular novos ovos; ovos que matavam a fome e também seus ocupantes.

                            Sentado em meio as penas e cascas partidas, quase espremidas, fornecia-se como a mais insólita das aves: Pelada, ainda que queimada pelo brilho de um sol invisível, enquanto que xingada pelo bando cujos filhos praticamente desovara prematuramente e sanara um apetite voraz, maior que a própria repugnância do fato que deflagara o ato de se achar alimentado e ultrajado pela vexação, agora que via-se o rompante de seu surto sobrevivente pós-fome.

                            Afastou-se dali pouco firme sobre os joelhos, correndo pesado sobre a areia escaldante, caindo, se levantando, as vezes correndo e se distanciando. A pele enrugada pela longa permanência n’água criava novas bolhas que, estourando, epocavam cada nova dor, renascendo o sofrimento, caindo desmaiado em estágio avançado de desidratação, junto a orla da mata.

II

 

                            O luar de uma lua que não espreitava no céu, mas algo correlato, acordou-o fletido no ir-e-vir da folhagem de uma enorme palmeira, ora cegando-o ora deixando-o na mais completa treva. Tentou ensaiar um movimento mas foi contido por algo mais que seu próprio pensamento. Nascido em algum paralelo em seu cérebro castigado, pensou: "Gúlliver!! Exército de micróbios seres a minha volta me querem como troféu nessa Terra de Lilipute..."

                            — Não - veio a voz nítida e tão cantante quanto o vento, embora menos assoviante.

                            Suas cordas vocais parecer-lhe-iam mais a cipós entrelaçados que a outro qualquer artículo humano. Foi com dificuldade que rouquejou:

                            — Isso-é-um-sonho?...

                            — Que sonho qual nada, que sonho poderia fazer isso por vós...

                            Através dum canalete de bambu um líquido cristalino lhe foi entornado muito calmamente sobre o rosto, a língua inchada e sôfrega que, mal-saída dos lábios ressequidos, tentava capturar alguma coisa que estava além de seus esforços conseguir.

                            — É alguma forma de... tor-tu-ra? - gemeu, sentindo nova vertigem.

                            — Nada tão vil assim - veio a mesma voz, — Seu estado inspira cuidados muito maiores que meus recursos permitem. Contudo, com paciência e primitivismo, devido a esse tosco material, havemos de poder apaziguá-lo.

                            — Apaziguaoquê?? - tossiu ao primeiro gole daquela mistura soberba e absolutamente invulgar que indiretamente lhe era fornecida junto a um frescor que, impossível negar, lhe inundava o corpo e aplacava suas dores num crescendo lento mas firme.

                            — Perdão se meus vocábulos contêm termos insatisfatórios a vossa época.

                            — A esse respeito deve saber bem mais que eu. Se você não é produto de minha imaginação, e provou não ser (acho), por que me prende assim?

                            — Não deve se esforçar tanto...

                            — Não devo?

                            — Deve sim se encontrar melhor, pois consegue o que os humanos chamam de ‘ironizar’.

                            Não sentia cordas sobre si, apenas um desejo de inamobilidade mais forte que qualquer outro comando psicomotor, total cessão de movimentos bruscos que, estranhamente, à partir daquela constatação, permitiu-o sentar-se e conclamar taxativo a seu interlocutor:

                            — Você é a morte.

                            Houve um silêncio e logo aquela voz-trinado retornava:

                            — É a coisa mais estúpida que já ouvi e posso dizer-vos que já ouvi muitas coisas! - engasgou-se num acesso que pouco ou nada tinha de riso humano:— Não. Não sou anjo ou demônio, sou antes um passante, se preferir, um socorro ambulante de um pobre saduceu.

                            As coisas corriam para ele de uma forma muito rápida. Seus olhos, firmemente cerrados, se recusavam a ver seu interlocutor. Suas forças ainda insuficientes para opor resistência a algo extremamente desagradável ao contato com sua boca e língua, indesejável, indecente, coleante, enfim, bom demais para ser real!

                            — Por que? - articulou quase inaudível, saboreando o desejo da imaginária criatura sem pensar no remorso.

                            — Se vos ofereço esse ósculo é por ser essa a única forma provinciana de ministrar o soro. Não vede, mas sois todo uma chaga e calcinado continuarias até o oblívio. Como responsável somos perante o ato, fui desviado para sua condução ao mundo-ilha.

                            O gosto agridoce lhe entranhara por todos os poros, o soro, agindo, dilatava vasos, irrigava o tecido, enquanto excitavam gânglios à produção de novas enzimas, estabelecendo um equilíbrio isotrópico. Quase como efeito secundário, suas recordações começavam a afluir no refluxo de sua memória, como um dique sendo sangrado com uma lentidão enervante, mas que se contrapunha às forças das águas, prestes a ser derrubado.

                            — Posso perguntar...

                            — Não desperdices esforços com vocábulos, ainda. Posso me antecipar a qualquer pensamento vosso, mesmo que a tradução possa parecer sofrível...

                            "Somos uma entidade multi-corpórea. Como unidade de um indivíduo, somos precárias mas necessárias à pesquisa de campo. As únicas particularidades que possamos possuir são decorrentes e inerentes do vício do convívio com muitas proto-culturas. A prolongada estadia em muitos mundos me afeta de forma diretamente proporcional.

                            "Numa de minhas transições quânticas ocorreu o que vosmicês costumam designar por ‘singularidade’: uma convergência foto-espacio-vetorial; vossa malograda experiência com forças que desconhecia em vosso ciclotron operaram uma fase de interface que nos permitiu interagir por frações infinitesimais.

                            "Pude, sacrificando meu Ente Tecnológico, reconduzir nossos corpos para esse entroncamento que a vossos olhos é um arquipélago no oceano, contudo, como era de se esperar, posto a exigüidade de tempo a meu dispor para triangular, cada qual de nós divergiu no espaço límbico por varias centenas de vossos pouco precisos metros, levando-vos a materializar-se no ‘oceano’".

                            Enquanto a criatura falava os olhos dele se descerravam prontos para aceitarem o choque que o pânico traria, antecedendo o desprazer que estava prestes a sentir.

                            Viu-o de costas, o corpo nebuloso entrando em foco, constituído por infinidade de folhas assimétricas pardo-rosadas, com trechos de pele exposta dum veludo azeitonado, altercada a anelares blindados de brilho fosco.

                            O corpo virou-se para ele num impulso e teve de fechar os olhos em repulsa instintiva, mas não podendo abreviar o beijo que se seguiu.

                            — Acho-me fraco, também - disse o ser como se suas forças proviessem de gastas baterias, — Estou inclinado a minhas fraquezas muito mais que minha mente analítica me permite! Desculpe se assusto-vos ou faço de sua saliva algo mais que simples ungüentos. Os padrões de beleza nunca são iguais, pois o belo pode-se tornar horrível para nossos observadores visuais...

                            Ele viu-o se afastando do cálido e úmido toque e notou o roçar de seus fartos cabelos arrumados em torno do pescoço absolutamente humano, formando algo como uma juba; olhos lilases se estreitavam bem separados entre si num rosto afilado como uma gota de cantos curvados na forma de um coração, ligados por um nariz róseo de onde saiam cânulas até um compartimento blindado sob o queixo delicado, retornando até aquela boca voluptuosa que era a coisa mais perfeita que jamais vira e julgara ou ousara poder existir.

                            — Todo viajante é assim como você?

                            — Não. Só os mais horripilantes.

                            Foi a vez dele sorrir, sem saber ou se interessar se aquilo correspondia a verdade ou não, se contentando com a linda visão.

                            — É tarde. Não podemos ficar muito tempo mais em transitoriedade.

                            — Por que? - assustou-se por perguntar, destarte considerando aquilo muito importante para ele, como um sonho que a qualquer momento terminasse.

                            — Direi: essa ‘praia’ se auto-governa. Seres que chegam à ela excepcionalmente voltam; as gaivotas são os ‘anjos’ de vossa mitologia, logo, mas não fique constrangido por isso, vós comeste alguns querubins por nascer. As regras são bem claras quanto a manutenção das ‘ilhas’, e por mais que o equilíbrio padeça ainda há uma chance de recupera-lo ao seu quadrante-octante de realidade virtual.

                            Por mais repulsa ou curiosidade que sentisse, somente encontrou forças para indagar:

                            — Nunca mais nos veremos, não é assim?...

                            Amparado naquele ser sexualmente transitório era como se sempre há houvesse conhecido, alienígena na origem mas mulher de fato em sua essência, ao menos para ele.

                            E ‘ela’ percebeu.

                            — Somos afeitos de nascença a qualquer cognata relação homem-mulher e devo ressaltar o quanto tive perto de contrapor a essa máxima convosco, mas minha saliva sempre estará misturada com a vossa enquanto existirmos, quando e onde estivermos.

                            — Você tem ao menos um nome?

                            — Rótulos? Sim. Considere-me Krause. A-miléssima-parte-do-todo.

                            — Suspeito, Krause, que tudo isso desaparecerá de minha memória. Que a lembrança desse lugar, o formato de seu rosto, tudo enfim não terá passado dum ...

                            Seu rosto curvado para baixo, como o de um menino entristecido pela perda dum ente querido, foi tomado pelo afago do ser, enquanto sua terceira vértebra era premida, lhe trazendo algo bem próximo ao orgasmo que nunca experimentara tão sublimado assim.

                            — É assim que fazem sexo? - disse ele, quase sem fôlego.

                            — Nós comungamos. Sexo é para com os animais...

                            O semblante dela, se interpretar podia suas feições, era muito mais irônico que sincero ao captar novamente seu pensamento sem que ele o proferisse.

                            "Sejamos animais!!..." era o que eles diziam.

                            — Sei!!! Sabia que me ias pedir reciprocidade...

                            — Um favor merece ser recompensado!

III

 

                            Olhou para os técnicos e para a grande estrutura do ciclotron que ocupava dois andares inteiros do Edifício do Reator. Era muito concreto armado para abrigar o pequeno acelerador circular brasileiro, adjacente ao campus universitário, a parafernália eletrônica e a grande assepsia do imenso hall coadunando com a grandiosidade do evento, infelizmente pouco ou nada com os resultados.

                            Sem que fosse originado na ameaça da cassação da subvenção federal do birot científico, por um momento sentiu uma certa vertigem, no momento seguinte era como se nada daquilo tivesse acontecido, ainda que seu subconsciente alertado lhe aconselhasse um médico por causa daquela brevíssima lassidão e perda de equilíbrio...

                            Felippe, um dos alunos recém-graduados, passou por ele, batendo levemente em sua prancheta com um objeto metálico à título de chamar sua atenção antes de colocar a haste fria de tungstênio em suas mãos. Foi como se acordasse de vez para o projeto que até então redundara em fracassos sucessivos.

                            — Fez como pedi? - indagou, após um certo tempo quando estranhamente suas cordas vocais se ajustavam a necessidade de movimento.

                            — Sim...

                            — Posso saber o que há de errado? - estava contrariado pela insistência do rapaz em fitá-lo tão abertamente, fazendo-o desviar os olhos pouco a vontade.

                            — Bem sei que não é de minha conta, senhor...- hesitou, mas diante do fulminante olhar, capitulou:— Doutor, onde conseguiu esse bronzeado??

                            — Você deve estar trabalhando demais, Felippe! Descanse o quando puder, garanto que seus olhos estão vendo coisas, pois continuo o mesmo branquela de sempre!! - e antes que o outro se afastasse, abatido e confuso, concluiu:— Peça, por favor, para que o pessoal da limpeza venha aqui com urgência. Alguém deve ter negligenciado novamente!

                            E completou em pensamento, enquanto estranhava e tentava ocultar com o auxílio da prancheta, a impressionante e persistente ereção de que era acometido

                            "É estranho o tipo de sujeira que encontro no laboratório de Física Experimental, assessorado por esse bando de acadêmicos idiotas".

                            Nem se deu ao trabalho de traçar um paralelo entre aquele monte de areia azulada espalhada a seus pés e o ‘bronzeado’. Se tivesse perdido alguns instantes para meditar algo que não fosse decorrente do projeto Brasil 2000 (mas de alguma forma inexplicavelmente ligado), teria intuido que o mundo não era somente partículas em movimento, contidas em espaço confinado de estruturas energéticas de campo variado.

                            Corpos que se chocavam aleatoriamente, trocando referenciais, existiam em detrimento de serem macro ou nanoinfinitessimais.

                            Corpos, que por simbolismo, possuiam nomes próprios, tais como KRAUSE ou o dele próprio. Partículas carregadas de íons permutados que um dia, se o caos assim permitisse, voltariam a orbitar um mesmo referencial.