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O Jogador

Matias Perazoli Junior

        Sentado numa espaçosa cadeira do vôo 452 da TransLua, Alberto Garcia pensava nos últimos anos de sua vida, deveria ser fantástico viver na Terra, não havia crimes, não havia mortes, não havia doenças, não havia fome ou pobreza. Durante milhares de anos o ser humano trabalhou para chegar nesse estágio. Nunca como no século XXV o homem se desenvolveu tanto, nem mesmo no século XX, considerado por muitos como a era de ouro da humanidade. Deveria ser realmente fantástico, mas não era, ao menos para Alberto, faltava algo. Ele tinha um excelente emprego como professor de história alternativa na Universidade de Campinas e tinha um programa de Literatura na 3DTV.

Uma sala de aula por muito tempo foi considerada um método obsoleto de ensino, maneiras mais eficazes já eram conhecidas no começo do século XXI, mas tempo para aprender é o que mais se tem hoje. Ninguém começa a trabalhar antes do 25 anos e ninguém precisa trabalhar após os 60, apesar de muitos continuarem por mais 20 ou 30 anos e ainda aproveitarem pelo menos mais 10 anos de vida antes de se desligarem. Desde que todo a mapeamento genético foi descoberto pelo final do século XXI e os problemas sociais e econômicos da sociedade foram resolvidos, não existe mais morte natural, descobriu-se contudo que após uma certa idade todos procuravam uma forma artificial de morrer, instituiu-se então algumas formas legais e indolores de induzi-la.

Alberto tinha completado 40 anos havia poucos meses e não se sentia feliz, apesar dos amigos, da esposa, dos três filhos, ele sentia que faltava alguma coisa em sua vida. Numa aula discutindo os efeitos na sociedade se a morte natural não tivesse sido extinta, seus alunos criaram uma sociedade que no século XXV ainda se estruturava econômica e socialmente como no final do século XX . Na verdade a discussão se alongou por quase um mês antes de chegar a este ponto mas foi gratificante.

Ele nunca havia pensado no assunto, mas começou a se interessar pelas colônias. O tempo necessário para a terraformação da Lua e de Marte foi de quase um século. Só então os primeiros colonos pudessem habitá-los, mas a história registrada por esses desbravadores faz a conquista da América no século XVI parecer brincadeira. Ainda assim a Lua e depois Marte foram as únicas colônias a serem desenvolvidas e hoje são estados independentes da Terra com governos e leis próprias.

Foi quando começou a sonhar com a possibilidade de construir um mundo novo, os desafios que teria que enfrentar, pena não haver mais colônias a serem desenvolvidas e a Lua e Marte já estavam alcançando um estágio muito próximo ao da Terra

        Não havia esperança nenhuma para Alberto até que cerca de um mês atrás recebeu uma holomensagem de um amigo de infância que havia se mudado para a Lua . Era curta aparecia ele sob um fundo de estrelas apontando para Titã. Os governos da Lua e Marte haviam de decidido de comum acordo colonizá-lo. Titã seria o terceiro a sofrer uma terraformação se o projeto do governo terrestre não tivesse sido cancelado. Mais ainda, ele dizia que era chefe da equipe Lunar e embarcaria para Marte no final do ano. Assim ele se despedia de Alberto pois provavelmente não teriam como se comunicar facilmente nos próximos anos.

        Assim que a mensagem terminou Alberto enviou uma resposta. Ele sentado em sua cadeira simplesmente oferecia ajuda a Gustavo. A resposta veio rápida, uma passagem de primeira classe para o vôo 452 da TransLua.

        Por um instante ele se questionou. Será que a escolha que tinha feito era correta, ele tinha família, tinha uma carreira, gostava de dar aula e ver o brilho nos olhos dos jovens que a cada ano passavam ali.

        Gostaria de poder se aconselhar com seu pai, mas ele havia sumido dois anos antes, disse que queria conhecer o mundo, queria ir aos lugares que conhecia através de hologramas, queria sentir seus cheiros e seus sons. Simplesmente viajou e nunca mais deu notícias. Sua família ficou, até acharam um absurdo ele abandonar tudo para se aventurar numa maluquice dessas, como disseram.

        Ali estava ele sentado na cadeira 7 com destino a Lua. Era estranho não deveria haver nenhum ruído ali, seja de motores ou qualquer outro, no entanto ele escutava ao fundo um som que parecia de um motor. Depois ele viria a saber que o ruído era artificial, os passageiros se sentiam melhor com ele, ficavam muito tensos quando não ouviam um ruído de motor, principalmente os que vinham da Terra.

        Durante a viagem ele se questionou o tempo todo, lembrou de sua infância, dos amores de sua juventude, do prazer que sentia em ensinar, e procurava respostas para tentar entender como tinha chegado até aquele ponto. Sabia que não haveria mais volta, mesmo que viesse se arrepender das decisões que tomou, elas tinham sido tomadas de forma consciente e as perspectivas eram boas. Agora que chegava na Lua sabia o que o fazia tão infeliz.

        A porta se abriu e ele desceu lentamente, Gustavo podia ser notado de longe, ainda mais quando estavam lado a lado. Enquanto Gustavo era alto (mais de dois metros de altura) e tinha os cabelos cor de fogo, Alberto tinha pouco mais de um metro e sessenta e uma calvície acentuada, mesmo que fosse por sua escolha própria. Caminharam juntos até a saída do Porto Espacial Lunar e entraram numa espécie de bolha plástica transparente, na verdade um Lunomóvel. Alberto viu então pela primeira vez, a cena mais fantástica de sua vida, olhando o céu pode admirar a beleza daquela bola azul, a Terra. O impacto foi maior ainda porque sabia que em breve nunca mais a veria, a não ser em sonhos.

        Os dados haviam sido lançados, as apostas haviam sido feitas, o futuro uma completa incerteza... E isso o excitava.