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TENTATIVA DE INVASÃO

Adriana Simon

        Gium olhava para o monitor, cansado. Sua pele úmida e viscosa, agora estava ressecada. Sentia necessidade de se fluidorizar. Só pensava na sensação fria e agradável que a limpeza lhe causaria, na sucção que retiraria o excesso do fluido de seu corpo e... Balançou a cabeça jogando os tentáculos cefálicos para trás. Tentava se concentrar novamente na questão no monitor a sua frente. Já estava na quinquagésima questão. A última e uma das mais difíceis.

        Seja o que Ziluk quiser — pensou ele, arriscando uma resposta. Franziu seus olhos e o monitor se desligou. Neste momento, muitos jovens como ele estavam em seus aposentos fazendo a mesma prova. Seria uma honra para qualquer um deles participar da nova turma que os governantes de Zircon enviariam para fazer o reconhecimento do planeta azul e a preparação necessária para a invasão. Na verdade, para ele a invasão, por assim dizer, era o que menos importava. O que eles efetivamente desejavam era viajar pelo espaço, conhecer outro planeta, outra civilização, e tudo o que isto implicava. A grande maioria dos zirconianos passavam a vida inteira trabalhando na extração de fluido. Muito tempo antes, havia fluido na superfície do planeta, mas com o passar dos anos, este fora se esgotando. Os zirconianos, antes anfíbios, haviam se tornado animais terrestres, mas o fluido continuava sendo indispensável para sua sobrevivência.

        Os pequenos lagos na superfície eram destinados para a procriação da espécie. Após a fecundação, as fêmeas depositavam os ovos nos lagos. Os ovos eram arrastados até lençóis abaixo da terra, onde o calor era necessário para o término de sua evolução. Quando saíam dos ovos, os bebês instintivamente voltavam para o lago e entravam em contato telepático com suas mães, que se apressavam em resgatá-los. Aqueles que não conseguiam se comunicar telepaticamente morriam afogados nas primeiras horas de vida, pois sua força não resistia por muito tempo. Por isto, a telepatia se tornou fundamental para eles, tornando seu principal meio de comunicação, a voz nunca era utilizada. Com isto, tinham desenvolvido bastante os poderes da mente, assim como a telecinese.

        Gium ligou mentalmente seu "colchão" e se deitou. Era uma chance única — pensava ele — poder viver em outro corpo, fazer coisas nova, ter uma vida diferente de todos que conhecia. Adormeceu pensando no seu futuro, e no seu último teste que seria no dia seguinte.

        Acordou na manhã seguinte, vestiu o uniforme, tomou um copo do fluido. Se preparando para o último teste. Havia feito um treinamento durante meses para conseguir "falar" emitindo sons. Nunca pensou que aquilo seria necessário. Era muito melhor se comunicar mentalmente, pois não importava a distância, nem o meio em que se encontravam.

        Sentou na frente do monitor. O teste se consistia em repetir sons que eram emitidos pelo computador, da melhor forma possível, para posteriormente serem analisados. Dos numerosos voluntários, mais da metade fora eliminada no primeiro teste físico, que consistia em se ter cordas vocais. Como os zirconianos se comunicavam via telepatia, muitos deles já não possuíam mais cordas vocais, quer fosse pela evolução da espécie, por cirurgias de retiradas impostas por algumas religiões ou por mera praticidade. Quando havia alguma inflamação nas cordas vocais, estas eram retiradas devido a sua inutilidade funcional. Os voluntários que passaram no teste físico, haviam sido treinados a usar cordas vocais para poderem aprender a se comunicar com os terráqueos. Como a viagem impossibilitava que levassem qualquer tipo de equipamento, não poderiam levar os decodificadores cerebrais que normalmente utilizavam para se comunicarem com outros seres de sua galáxia. Após o término do teste, finalmente pode relaxar. Havia meses que estava isolado de todos os que conhecia. Na verdade, estava isolado de todos os que não conhecia também, para que os testes não fossem influenciados.

        Se fluidorizou e saiu para rever alguns conhecidos. Como era bom sentir aquela brisa fresca em seu rosto, ver as nuvens se agitando no céu rosado. Era uma pena que os zirconianos passassem tanto tempo da sua vida extraindo fluido. As máquinas que construíam não eram eficientes, pois mais cedo ou mais tarde eram derretidas pelo fluido. Todos os materiais que conheciam eram dissolvidos pelo fluido, com exceção de seus corpos, que eram compostos quase que totalmente dele.

        Após algumas semanas de descanso, Gium recebeu o chamado. Havia sido escolhido! Nem acreditava que pudesse ser verdade. Compareceu a uma solenidade na grande câmara, onde foi homenageado juntamente com muitos outros.

        Esta era a terceira turma que seria enviada. As duas anteriores não tinham entrado em contato. Não sabiam exatamente o que havia acontecido, mas imaginavam que eles haviam tido problemas de adaptação que os impediram de pôr em prática a missão para qual foram enviados. Por isto, desta vez os voluntários haviam passado por uma seleção rigorosa.

        Gium lembrou dos inúmeros testes físicos e mentais pelos quais passara, alguns com muita dificuldade.

        Ao final dos testes, a turma restante era cinqüenta vezes menor que o número inicial de voluntários. Apesar das dificuldades, fora um dos melhores do grupo. Era uma honra e uma responsabilidade enorme, ia dar o máximo de si para concluir a missão o melhor possível.

        Como não sabiam para onde da Terra os escolhidos seriam enviados, haviam sido treinados da melhor forma possível para que pudessem superar as dificuldades, que com certeza seriam muitas. A turma se submeteu por muito tempo a vacinas e treinamento diários e rigorosos. Agora formavam uma longa fila que seguia o capitão até a Grande Câmara, seus reflexos no chão formavam uma outra fila imaginária.

        O silêncio era impressionante. Gium olhou para o teto ovalado que reluzia sentindo uma pontada de insegurança pelo que estava por vir. Na Câmara, se posicionaram ao lado de cada uma das cápsulas. O capitão deu um sinal, e todos tiraram as indumentárias, que colocaram ao lado. Cada um deitou na cápsula adjacente. Gium conectou os fios no seu corpo conforme fora instruído. Mais uma vez sentiu uma pontada de receio, pois sabia que sua viagem seria longa, mesmo pelos padrões zirconianos. Fechou os olhos e entrou em estado alfa. Tinha uma leve sensação de movimento. Os escolhidos chegariam na Terra com diferença de tempo, devido às trajetórias, que não seriam as mesmas para evitar que possíveis choques no espaço liquidassem todos de uma só vez. As partículas de seu corpo, assim como a de todos os outros, viajaram por inúmeras galáxias até finalmente chegar a seu destino.

        Quando recobrou a consciência, estava em um lugar quente, úmido, escuro, mas até que agradável. As partículas de seu corpo formavam agora um ser microscópico, que para ele, cresceu rapidamente. Após o equivalente a apenas algumas horas zirconianas, já era bem maior e foi tirado de lá para a claridade de fora. Tudo passava muito rápido, não conseguia saber exatamente o que estava acontecendo. Sabia que seria difícil se adaptar àquele corpo mas, pensava ele, ainda teria tempo para se adaptar. No começo chegou até a arriscar algumas palavras, para ver se conseguia se adaptar às cordas vocais dos terráqueos, que eram diferentes das do seu corpo original. Como ainda não podia fazê-lo adequadamente, resolveu esperar mais algum tempo e se concentrar na adaptação plena. Após alguns dias zirconianos, já estava ligeiramente melhor. Tentou se comunicar com outros zirconianos mas nas poucas conversas que teve decidiu que seria melhor se concentrar na sua adaptação. Conversas ficariam para depois.

        Não conseguia se acostumar com aquela cabeça, e a balançava para frente e para trás, na tentativa de alcançar o equilíbrio. Devido à sua diferente percepção, ainda não conseguia identificar claramente o que acontecia a sua volta. Olhava para suas mãos e contava com os dedos, a distância de sua terra natal e os dias que precisaria para concluir a missão. Olhou um instante pela janela, com saudades de seu planeta. Os zirconianos não sabiam que o ciclo de vida deles é muito maior que a dos humanos, e os dias, muito maiores que os terrestres. Para Gium, aqueles anos na Terra equivaliam a dias em Zircon e o tempo passava rapidamente.

        Um casal, a alguma distância olhava para o jovem que brincava com os dedos.

        — Estes anos passaram tão depressa...Parece que foi ontem que ele estava aqui em minha barriga — disse a mulher.

        — É, ele cresceu depressa — disse o homem.

        — Olha, ele parou de brincar com as mãos e tem um olhar tão compenetrado que até parece normal.

        — Tem razão, nestas horas eu até me esqueço que ele é autista.

        Gium e os demais zirconianos nem imaginavam que o tempo necessário para a adaptação era superior ao tempo de vida do corpo humano, impossibilitando a comunicação com seu planeta natal e a preparação para a invasão. Por muitos anos zirconianos, os governantes de Zircon mandaram várias turmas sem obter êxito, então finalmente desistiram.