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GHOSTWRITER

Fiquei um tempo olhando pra cara do editor, sem acreditar. Desde quando essa organização existe? eu perguntei. Ah, pouca coisa, uns duzentos anos. Era ali que estava o furo, pensei. Se vocês só existem há duzentos anos, como é que ficam os clássicos? Os gregos? A Bíblia, pelamor de Deus, como é que fica a Bíblia - pra não falar dos hindus. O editor deu uma risadinha. Não era uma risada sinistra, nada podia ser sinistro com aquela luz do Sol batendo no tampo de vidro da mesa, tornando legíveis os títulos na estante. Mas foi uma risada de mofa, aquele tipo de risota fininha, que perfura qualquer coisa nos tímpanos ou por aí. Quem disse que eles têm mais de duzentos anos? Me remexi na cadeira, inquieto. Como é que não têm? Com uma paciência de santo, ele explicou: você acha que esses livros são antigos porque leu outros livros dizendo que eles são antigos - e quem foi que escreveu esses outros livros? A organização, é claro. É claro, ecoei. Mas e os manuscritos? Nova risadinha, dessa vez não foi bem uma risada, foi quase um sorriso condescendente. Você já viu os manuscritos? Não, mas tem gente que viu. Conhece alguém? Pessoalmente, não. Agora a expressão do editor era a de um santo iluminado. Ah, você está me dizendo que acredita que alguém viu porque leu que alguém viu - é isso? Baixei a cabeça, humilhado. Era isso.

Quem é que escreve os livros? perguntei quando consegui absorver a informação. Não que eu acreditasse nela, mas tinha absorvido o bastante pra seguir em frente. Não sei se posso dizer, respondeu o editor. Sabe, você ainda não se comprometeu com a organização... mas também, se quiser dar com a língua nos dentes, vai fazer isso onde? nos jornais que a gente controla? Vai escrever um livro denunciando? É, pensando bem, você não tem muita escolha, então eu vou dizer. O núcleo da organização é controlado por alienígenas. Dei um pulo na cadeira, o editor não se deu por achado. É, alienígenas. Uma delegação marciana, que chegou aqui dois séculos atrás e decidiu remodelar nossa cultura.

Aí já era demais, levantei bruscamente, pronto pra ir embora. Qual o problema? ele parecia genuinamente surpreso. O problema é que todo mundo sabe que Marte não é habitado! exclamei. Eu esperava o riso de mofa, em vez disso veio uma gargalhada. Sabe porque leu, ria o editor. É, tinha lógica. Eu estava quase acreditando nele. O problema é que, para acreditar, eu teria que me desfazer de todos os meus sonhos como escritor. Que sonhos? retrucou o editor: o que um escritor quer é fama e fortuna, e isso você vai ter.

Mas e a arte?

Arte é um conceito inventado pelos marcianos no século XIX. Só quem está de fora é que acredita nele. E você vai estar dentro .

Já aconteceu de algum escritor recusar?

Milhares de vezes.

E o que acontece?

Nada, o cara desiste da carreira de escritor e vai ser servente de pedreiro. Por que servente de pedreiro, por que não advogado ou médico? O editor coçou a cabeça com um gesto displicente. Você não acha que um grupo capaz de reinventar toda a cultura da humanidade vai ter influência só nos meios de comunicação, acha? A gente tem que se proteger. Se um médico ou advogado sair pelas ruas falando de um complô, mesmo sem cobertura da mídia, alguém é capaz de dar bola. Mas quem é que vai acreditar num gari denunciando uma conspiração marciana de alcance internacional? Ainda mais com uma junta de psiquiatras prontos a declarar que o cara sofre de esquizofrenia paranóide?

O editor levantou, caminhou até a janela e ficou admirando o movimento na avenida um tempo, antes de virar pra mim e perguntar: E aí? Fecha com a gente ou não? É claro que eu fechei. Não fui eu que escrevi isto, embora o meu nome esteja na capa.