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CAPACETES AZUIS, VERDES E AMARELOS

Lúcio Manfredi

Nota : o artigo a seguir foi escrito em abril de 1993, planejado originalmente como parte de uma série de três resenhas sobre a antologia Tríplice Universo , edição GRD com os três primeiros colocados do Prêmio Jeronymo Monteiro, da extinta Isaac Asimov Magazine brasileira. Dos três ensaios previstos, apenas este chegou a ser escrito. Ele reflete o conhecimento que seu autor tinha da obra de Causo há quatro anos. De lá para cá, os contos do escritor podem ter se afastado sensivelmente do quadro esboçado nestes parágrafos. Mesmo assim, optou-se por se reproduzir o ensaio em sua forma original, já que uma revisão implicaria em um artigo novo, maior tanto em extensão quanto em profundidade.

Um dia, alguém ainda vai escrever sobre o tema do guerreiro peregrino na obra de Roberto de Sousa Causo. Seja um lobo solitário, seja um agente secreto, no pós-holocausto, nas selvas brasileiras, entre as montanhas italianas ou num mundo subitamente privado de seus habitantes, os heróis causianos estão sempre em trânsito, movidos pelos mais variados McGuffins, da paradoxal caixa preta de um avião-espião a uma aldeia de extraterrestres spielbergianos onde, vejam vocês, também não falta uma caixa muito especial. Claro, a essa observação genérica não faltam exceções ("Duelo Neural", por exemplo, ainda que este último comporte um certo tipo de peregrinação do protagonista pelos meandros de um labirinto virtual), mas não há dúvida que esse é um dos fios vermelhos que percorrem a ficção de Causo.

Nesta, a exemplo do que se vê no cinema de James Cameron, não por acaso admirado pelo autor, convivem uma moral pacifista e um inescamoteável fascínio pela coisa militar, que vai da peculiar ética soldadesca àquele obsessivo detalhismo com equipamentos bélicos, as armas, seu funcionamento e siglas, que arrancaram não poucas ironias de José Fernandes. Uma leitura apressada diria que o elemento predominante é a atração bélica, da qual o bom-mocismo cardiano seria uma cobertura superficial, glacê de boas intenções em um bolo recheado com coquetéis molotov. Não é bem assim, e por vários motivos.]

Em primeiro lugar, seria um erro crasso rotular de bom-mocismo a posição do autor que, pelo contrário, é um reflexo de seu compromisso ético e religioso, conhecido por quem o conhece e, sabidamente, um compromisso sincero. Em outras palavras, é algo tão básico, tão entranhado na estrutura de Causo quanto seu notório fascínio pelo campo bélico. Mais que uma contradição, portanto, o que temos aqui é um conflito, com todas as ressonâncias dialéticas e psicanalíticas dessa palavra. E é impossível deixar de perceber como é desse conflito que se alimenta a escrita de Causo, o qual, a meu ver, trabalha-o melhor do que Cameron, que por vezes refugia-se num maniqueísmo meio por sobre o simplista.

No universo ficcional causiano, por sua vez, a agressividade e o pacifismo coexistem num dualismo de fronteiras menos nítidas. Causo mesmo refere-se à " aparente incongruência de homens armados, capazes para a destruição e empenhados em evitá-la", declarando-se "um ardoroso defensor do emprego militar para a paz". Bem, Causo, amigo velho de guerra, me desculpe mas a incongruência não é só aparente e sua caracterização do problema apresenta a mesma estrutura semântica da autodefinição do diabo no Fausto : "uma força que sempre visa o mal e sempre produz o bem ". É um paradoxo, como é um paradoxo a reversão final da guerra em paz que aparece, por exemplo, em "Patrulha para o Desconhecido", onde as escaramuças entre alemães e brasileiros transmutam-se repentinamente numa participation mystique em que cada soldado depara consigo próprio e com uma espécie de rizoma universal de humanidade, do qual não estão excluídos nem mesmo os alienígenas.

Não haveria emblema melhor para essa temática do que os boinas azuis da ONU, heróis do conto "Capacetes Azuis, Verdes e Amarelos", a amostra da literatura de Causo que fecha o tríptico GRD. Causo definiu esse conto como "uma história com moral" e, realmente, por vezes, parece que estamos diante de uma fábula ecológica, como as que Kurosawa compôs em seus Sonhos . Uma comparação não gratuita, haja visto as encarniçadas batalhas coreografadas pelo cineasta japonês em Ran e no final de Trono Manchado de Sangue , assim como o episódio dos soldados mortos no já citado Sonhos .

"Capacetes Azuis" começa in media res , do que eu particularmente gosto muito, em meio a um combate um tanto quanto r(oc)amb(ol)esco, do que eu particularmente gosto menos: dois contra o mundo, ainda que com uma metralhadora e mandando a convenção de Genebra ao diabo, soa meio inverossímil, mas não chega a comprometer a narrativa predominantemente realista do autor. Realismo que, não obstante, longe de impedir uma leitura alegórica, praticamente a exige - como, de resto, doa ficção científica de boa qualidade.

Assim, Santos e Ruschi, sem que em momento algum percam a caracterização psicológica com que simulam ser pessoas de carne e osso, são igualmente figuras paradigmáticas de duas atitudes militares básicas. "Isto aqui é a guerra ", diz Santos, o calejado sargento, veterano e autoritário. "Aqui não tem moral. É a lei do cão. Manda o mais forte, e o mais forte sou eu." Ao que Ruschi, que por sua fraqueza e ingenuidade juvenis desperta imediatamente a empatia do leitor, replica: "Isto não é a guerra. É uma missão de paz. A gente não tem que atirar em ninguém. Não tem que estuprar ninguém."

Estamos no deserto líbio, em um futuro próximo, num mundo às voltas com escassez de água e catástrofes ecológicas. Russos e americanos ainda jogam seu xadrez intervencionista - a história, claro está, é anterior ao colapso da União Soviética, esquartejada e com seus membra disjecta entrando pela tubulação, Terceiro Mundo abaixo. Há uma patrulha para o desconhecido, e o desconhecido é outra vez uma caixa misteriosa, uma caixa de Pandora que guarda seus segredos de destruição e morte, mas também de esperança. Há um jovem soldado voluntário atravessando sua iniciação: este é o deserto em um de seus múltiplos avatares, o deserto que já foi a Palestina de Moisés e Maomé, a tentação de Jesus Cristo, o cadinho onde se fundiram Paul Muad'dib e os Fremen, o deserto onde o olho de Deus, aquele que tudo vê, mostra-se com atordoante clareza. E aqui, a prosa de Causo e a poesia do misticismo ismaelita apresentam uma convergência tão inesperada quanto não intencional.

Compare-se a impressionante passagem das pp. 167-168 - com aquele eloqüente ( ela! ) exclamado pelo soldado que se defronta com o transcendente no meio do deserto - e estes versos do místico árabe Abd al-Karim al-Jili: "Fora da Sua morada, a tropa erra no deserto. Que limites insuperáveis se abrem à frente da caravana que tende para Ela!"

Ela, bem-entendido, é Deus em sua face feminina, como é Deus que se esconde por trás da máscara dos extraterrestres de Causo, agentes da transmutação da guerra em paz, como o deserto onde os primeiros cristãos buscavam pacificar os conflitos da carne. Amigo, esta é realmente uma história com moral, uma moral ainda mais profunda do que se percebe à primeira vista. É também um dos melhores contos de Causo - e isso não é pouco.

São Paulo, 27 de abril de 1993